#Clarice-se: Encarnação Involuntária


Um pouco sobre o conto:
Durante a trajetória de um voo ao se deparar com a presença de uma missionária, a narradora nos revela sua habilidade: ela consegue se colocar  dentro da vida dos outros. E como seria isso? Ela se transporta para dentro das pessoas e vive ali as angústias, medos, manias e momentos, passando dias estando na pele de desconhecidos e tentando enfim voltar para si novamente. 

A narradora-personagem sente o ser humano o qual se encarnou e aspira o melhor e pior de cada um, inclusive os trajetos, rubores e outros mínimos detalhes. Essa é a maneira dela de se colocar na vida do próximo e saber como é estar naquela pele durante algum tempo. Para alguns um dom, uma maneira de adentrar na vida alheia e se colocar na pele do próximo; para outros apenas uma forma de sentir empatia e respeito perante aos desconhecidos e seus frustamentos.

A história pode ser pequena e de leitura rápida, mas a extração de sentimentos e a mensagem interior que fica com o leitor é de grande valor, ao menos na visão diferenciada e compartilhada de cada um de nós. Alguns podem absorver apenas uma história sobre uma mulher que se via espelhada na vida de estranhos ou que, talvez, quisesse se sentir como outra pessoa em certas ocasiões; para outros a imersão do conto trará reflexões ainda mais intensas e valiosas, como a de uma mulher que sente empatia pelo próximo e se coloca na vivência de cada um, para assim absorver até mesmo os piores dias, traumas e problemas e dessa maneira entender o lado de todos. 

Independente das interpretações e sensações, cada leitor terá uma experiência única com esse texto da Clarice e, acredito, será de grande valia para aceitar a si próprio e vê com outros olhos aqueles que precisam de ajuda (ou que precisam apenas de palavras amigas e um olhar acolhedor). Um conto que com pouquíssimas páginas te ensinará muito mais do que você poderia aprender com uma história extensa que passa de 500 ou mais páginas. Palavras que ficarão com você e te mostrarão o melhor de cada um, inclusive de você mesmo.
"(...) ao nela me encarnar, compreendo-lhe os motivos e perdoo. Preciso é prestar atenção para não me encarnar numa vida perigosa e atraente, e que por isso mesmo eu não queira o retorno a mim mesma."

O que extrai da história:
Novamente estamos diante de uma narrativa em 1º pessoa, conhecendo a história de uma mulher não nomeada, vendo através de seus olhos e sentindo através de seus sentidos. Não sei se isso também acontece com vocês, mas quando leio contos da Clarice com essa escolha de narrativa eu tenho a impressão que isso é extremamente proposital, pois assim há uma maneira ainda mais fácil e rápida de nos colocarmos na pele da personagem, nos vermos nela. É exatamente como se a narração fosse feita por nós e essa identificação acaba fluindo de forma ainda mais natural. E isso sempre me encanta.

Mesmo assim, continuo com a sensação de não ter extraído tudo que deveria e poderia. Ao final da leitura fiquei pensando quais outras mensagens o conto poderia querer passar, para isso até reli o primeiro parágrafo e tentei, em vão, imaginar o que mais a autora estava tentando me dizer. Mas acredito que, no momento, eu extrai o que eu deveria, o que era para mim

Me desprendi da leitura levando comigo duas mensagens: a de querer sempre voltar a ser você mesmo, independente de como a vida alheia possa parecer ser melhor ou das tentações de tentar se enganar ao almejar uma nova vida, pois mesmo que por um segundo (ou por alguns dias) você feche os olhos para si, sempre é importante retornar a vida que você trilhou e escolheu; e a empatia colocada em prática, sem julgamentos ao próximo e, muito menos, aos atos de desconhecidos, os quais desconhecemos até mesmo suas histórias (mas insistimos em julgá-los e repudiá-los mesmo assim). 

Ao meu ver, o ato da narradora em adentrar nas pessoas é uma maneira mais metafórica de dizer que a entende e compreende, a vê com os próprios olhos. Uma maneira mais visceral de nos "chacoalhar" e estampar a nossa frente o quanto se importar com o próximo é necessário e preciso, é para ser colocado em prática (e logo!).

Uma leitura rápida e até mesmo "fácil" que traz uma pluralidade de significados. Acredito até que por ser tratar de um texto expressivo e que pode variar em sentimentos e interpretações, é um ótimo indício de por onde começar a ler Clarice Lispector. Não se sinta pressionado a entendê-la por completo ou a tirar o mais fundo dos significados de suas histórias, pois isso nem com o tempo e as longas noites pensativas haverá uma saída. Clarice não precisa ser entendida, ela apenas necessita ser sentida. E é isso que você deve se atentar ao ler suas obras. Comece por essa e se delicie com a sua escrita encantadora, metafórica e enlouquecedora.

Você poderá encontrar o conto Encarnação Involuntária nos seguintes livros: em Clarice Lispector - Todos os Contos, publicado em 2016 pela editora Rocco; e na antologia Felicidade Clandestina, de 1998, também da mesma editora.


Me acompanhe nas redes sociais:

CONVERSATION

23 comentários via Blogger
comentários via Facebook

23 comentários:

  1. Oi Thainá, tudo bem?
    Super me interessei pela leitura e preciso fazer um pequeno desabafo em relação a autora. Na época da escola fui obrigada a ler uma de suas obras para um trabalho e como não consegui uma nota boa, fiquei com raiva hahahaha..

    Só agora - anos depois - que dei outra chance e cara... vontade de voltar alguns anos atrás de dar na minha cara. Clarice é maravilhosa demais e como vc mesmo disse, ela precisa ser sentida. <3


    Sai da Minha Lente

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Gente, que situação! Hahahaha. Não te culpo! Muitos jovens leitores acabam pegando raiva de algum autor ou obra por conta de trabalhos acadêmicos e mecânicos. E admito que isso me deixa com muita raiva. Eu, por exemplo, não terminei de ler até hoje o livro O Caçador de Pipas por conta de uma situação similar a sua. E acho que nem vou terminar um dia.

      Excluir
  2. Olá,
    Li poucas coisas da Clarice e não consigo entender rs
    Sei que às vezes precisamos só sentir o que a autora quis passar, mas os textos dela simplesmente não são para mim.

    Debyh
    Eu Insisto

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Dizem que para entendê-la é questão de prática, mas isso também vai muito de pessoa para pessoa, né? Às vezes ela só não funciona para você.

      Excluir
  3. Não conhecia o conto e eu não o leria, não me senti interessada pela proposta dele. Mas gosto de Clarice, mesmo sem ter lido um livro inteiro dela, li alguns textos avulsos e gosto dela.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ah, que pena. Mas que bom que gosta da autora, já é um começo para explorar mais textos dela.

      Excluir
  4. Oi Thainá, tenho vergonha de dizer que nunca li nada da Clarice, preciso mudar isso urgentemente. Eu imagino mesmo que seja uma leitura bem profunda e com mais de uma interpretação, dependendo do leitor.
    Adorei conhecer este conto.
    Bjos
    Vivi
    http://duaslivreiras.blogspot.com/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Vivi!
      É sempre bom ter um primeiro contato com a Clarice, recomendo que comece por algum conto que achar a sinopse interessante.

      Excluir
  5. Oi.
    Tudo bom?
    Ainda não li nada da autora, mas achei esse conto bem interessante. Eu teria que ler para saber qual interpretação daria, mas gostei muito das suas considerações. Vou tentar ler esse conto.
    Beijos

    ResponderExcluir
  6. Oi Thainá, sua linda, tudo bem?
    Eu sou fã dos textos da autora, ela é única. Já vi uma série com uma ideia parecida, onde tínhamos a oportunidade de descobrir o motivo pelo qual as pessoas estavam irritadas, e o motivo pelo qual elas agiam. Não justifica, mas não é nada do que pensamos, por isso julgar é tão errado e equivocado. Gostei muito da sua resenha.
    beijinhos.
    cila.
    http://cantinhoparaleitura.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  7. Olá! Cá está uma autora que admiro de longe. Como assim? Ainda não tive a oportunidade de ler nada dela, mas tenho essa vontade (hoje em dia, desempregada, só tenho lido os livros que ganho ou os ebooks que baixo de graça na amazon). A lista de livros dela cresce, mas antes mesmo de ler esse conto, sinto que ele será um dos meus favoritos justamente por essa mensagem na obra. Gostei demais da premissa e espero ter a chance de conferir em breve.
    Abraços

    ResponderExcluir
  8. Olá eu não gosto de contos e apesar de não ter lido nada da Clarisse e tenha um pouco de vontade eu não irei começar por esse então eu passo essa dica

    ResponderExcluir
  9. Oi,
    Eu nunca li nada da autora, é algo que preciso reparar. Estar dentro de cada ser humano e ver suas motivações não deve ser nada fácil. Que bom que o conto passa linda lições. Parabéns por sua resenha.
    Bjs.
    Pri.

    http://nastuaspaginas.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  10. Olá!
    Já li tanto Clarice Lispector, mais na época de escola.
    Muito boa sua resenha sobre o conto, ixa bem claro.
    Não sabia desse projeto Clarice-se. Bem interessante.
    Até mais

    ResponderExcluir
  11. Confesso que não sou nada, mas nada adepta a contos,na verdade eu não me interesso. Eu já tentei ler algumas obras sobre Clarice na época do colégio mas achou que por ter aquela obrigação para mim não funcionou, e nunca mais tentei, pode ser que mais para frente eu tente mas no momento não é meu foco, mas obrigada pela dica.

    Beijos

    ResponderExcluir
  12. Oi, tudo bem?
    Eu nunca tive contato com a escrita da Clarice, nem mesmo em contos, mas confesso que ainda falta um pouco de curiosidade. Quer dizer, eu até quero ler, mas não nesse momento.
    Acho que contos podem ser uma boa forma de começar a conhecer a obra dela, porém, não sei se começaria por esse, pois não me interessei pelo enredo. No entanto, achei legal o fato dele possibilitar diferentes interpretações. Além disso, quanto ao fato de você ter sentido que não absorveu tudo, acho que pode ser uma questão de momento. Talvez, quando você for reler em uma outra fase da vida, encontrará outras interpretações e reflexões.
    De qualquer forma, adorei sua resenha e fico feliz que tenha gostado da leitura.
    Beijos!

    ResponderExcluir
  13. Gosto muito quando a leitura me faz sentir, me faz conectar com algo e valorizo muito quando o autor consegue esse feito em poucas páginas como mencionou acontecer com esse pequeno conto. Outro dia eu mencionei que preciso ler Clarice e aqui eu reforço isso, ainda mais por saber que a escrita dela tem o poder de transportar o leitor para a posição do narrador da história. Recomendação bem anotada.

    Abraços.
    https://cabinedeleitura0.blogspot.com

    ResponderExcluir
  14. Olá, acho super bacana isso de os textos da Clarice poderem passar uma mensagem para cada leitor, com suas tantas interpretações possíveis, esse eu ainda não tinha lido mas depois desse seu post vou querer ler ele também.

    ResponderExcluir
  15. Uma leitura curta e enriquecedora. Não conhecia o livro, mas vou anotar a dica.
    Bjs Rose

    ResponderExcluir
  16. Olá, tudo bem?
    Eu já li alguns contos da Clarice, mas não conhecia esse conto ainda. Fiquei muito feliz por saber que ele rendeu tantas coisas positivas para ti. Eu acho que todas as obras da Clarice são enriquecedoras.
    Amei o seu post!
    Beijos

    ResponderExcluir
  17. Olá, qualquer coisa da Clarice é uma delícia de se ler haha.. esse conto eu achei bem interessante pelo fato de ter várias interpretações, é muito bacana saber que um livro ou conto pode ter significados diferentes para cada leitor. Gostei muito da sua resenha pois não se prendeu em trazer sobre o conto mas tbm como foi a experiência de leitura, ótima dica!

    Beijos,

    ResponderExcluir
  18. Que projeto interessante! As obras da Clarisse são incríveis e sempre nos trazem uma reflexão. Eu tenho aulas de teoria da literatura II e nós sempre analisamos os seus contos e debatemos, é uma experiência maravilhosa. A sua resenha está ótima, bjss!

    ResponderExcluir
  19. Clarice Lispector junto com o Nelson rodrigues foram os autores que mais estudei em tempos de faculdade e portanto tem uma grande influência em minha vida e gosto literária. No caso de Clarice o que mais amo é essa plasticidade que seus textos inserem os leitores.

    ResponderExcluir

Sponsor