24 de março de 2017

Resenha: "Um Teto Todo Seu" - Virginia Woolf


Reprodução: Google


Um Teto Todo Seu
Autora: Virginia Woolf
Editora: Tordesilhas
Ano: 2014
Minha classificação: ★★★★ (4/5)
No ano 1928, as faculdades Newham e Girton, que eram exclusivamente para garotas, pediram para Virginia Woolf dar uma palestra com o tema "As mulheres e a ficção". Para realizar este pedido, Woolf criou uma narração fictícia, porém com temas e citações reais, e através de sua personagem denominada Mary Seton a autora explora as dificuldades e batalhas que as mulheres do século XIX (e dos séculos anteriores) enfrentaram para ingressar na escrita. A maior parte do livro pode até ser narrada por uma personagem fictícia, mas a história contada através dela é mais do que real e ainda muito frequente no mercado literário atual.
"(...) é bastante evidente que mesmo no século XIX uma mulher não era encorajada a ser artista. Pelo contrário, era desprezada, estapeada, repreendida e aconselhada. Sua mente deve ter-se exaurido, e sua força vital ter diminuído pela necessidade de se opor a isso e desaprovar aquilo. Então aqui nos deparamos com um complexo masculino obscuro e muito interessante, que teve bastante influência nos movimentos femininos; aquele desejo inveterado nem tanto de que ela seja inferior quanto de que ele seja superior, que o coloca onde quer que se olhe, não apenas diante das artes, mas também bloqueando o caminho para a política, mesmo quando o risco para ele parece ínfimo, e o requerente, humilde e devotado."
Reprodução: Biblioteca Pessoal
Para Virginia, a mulher só precisa de duas coisas para conseguir escrever uma ficção: um teto todo seu e quinhentas libras por ano. E ela aprofunda seu argumento de maneira brilhante e sincera, expondo a verdadeira situação pela qual toda escritora é obrigada a passar até conseguir o reconhecimento devido apenas pela criação de sua obra, e não críticas ao seu gênero. Embora o livro tenha sido publicado pela primeira vez em 1929, o assunto discutido ainda é muito presente na nossa realidade, fazendo com que a leitora muitas vezes se identifique com o percurso que as mulheres do século XIX tiveram que enfrentar e o machismo disfarçado de críticas negativas, em sua grande maioria vinda de homens, que tiverem que encarar.

Em nenhum momento a autora usa de raiva, palavras baixas ou agressividade para expor seus argumentos e exemplificar o assunto dominado, como acontece na escrita de algumas autoras consideradas clássicas que expõem de forma rude e raivosa sobre o papel da mulher. Fica evidente que a Virginia não se sente bem em como é dividido o papel de cada gênero na sociedade, porém ela não usa esse sentimento para rebaixar o sexo oposto. Pelo contrário, ela não enaltece nenhum dos dois sexos.

A escrita da Virginia Woolf é arrastada e às vezes até cansativa, porém é envolvente e motivadora. Acredito que a leitura lenta seja devido ao assunto, que é falado de forma mais técnica, e porque se originou de palestras, mas não é uma narração que dê vontade de abandonar ou que você sinta vontade de parar de ler a cada minuto. É uma leitura que fará você querer saber mais sobre as escritoras daquele século, se aprofundar no assunto e ter ainda mais informações. Arrisco em dizer que essa leitura tem uma forma didática e que irá lhe ensinar muita coisa. Por isso não ache ruim se você demorar mais de 7 dias para concluir o livro, pois é uma leitura que deve ser desfrutada com o tempo, e não "engolida" às pressas.
"(...) de que quinhentas libras por ano representam o poder da contemplação, de que uma fechadura na porta significa o poder de pensar por si mesma."
A edição
Esta versão da editora Tordesilhas vem com um posfácio escrito pela crítica literária Noemi Jaffe, onde mostra a sua visão e entendimento sobre o livro, algumas partes do diário pessoal da própria Virginia Woolf e uma linha temporal sobre a vida e obras da autora. A diagramação do livro é boa, tendo as letras um tamanho razoável para leitura, as páginas são amareladas e têm um aspecto de jornal. A capa tem um tom forte de rosa e uma imagem que, ao final do livro você perceberá, faz todo o sentido com o conteúdo e a opinião da escritora. A tradução também está muito boa, e nada ficou a desejar. 

Minha opinião
A leitura de Um Teto Todo Seu foi praticamente uma leitura obrigatória para mim no mês de março, pois além de ser o escolhido para a leitura conjunta do meu grupo ele também servirá para a bibliografia do meu TCC, que já estou escrevendo. Então, não poderia terminar março sem ler esta obra. Já havia ouvido muitas críticas positivas, tanto para este livro específico como também para a autora Virginia Woolf, por isso minha curiosidade só aumentava de tempos em tempos. Já vou adiantar que tive uma ótima experiência com esta leitura, e que com toda a certeza será uma obra que gostarei de reler no futuro e que se encaixou perfeitamente no tema do meu artigo (posso falar mais sobre TCC em um post específico, caso vocês queiram).
Por mais que em algumas partes eu não tenha concordado com a visão da Woolf, no geral a leitura foi bastante agradável e satisfatória, trazendo muitas informações que antes eu desconhecia e me abrindo os olhos para outros detalhes. Nesta palestra da escritora lidamos frequentemente com o machismo e a desvalorização da mulher no mercado literário, algo que me incomodou bastante, mesmo sabendo que essa situação ainda é frequente e que era muito pior nos séculos passados.
Creio que a indicação para esta leitura seja livre, e encaixará perfeitamente para aqueles que queiram saber um pouco mais sobre a literatura escrita por mulheres no século XIX, servindo assim como mais conhecimento, e também servirá para quem tem vontade de aventurar-se nas histórias da Virginia Woolf. Sendo o primeiro livro que li da autora, fiquei com ainda mais vontade de conhecer os outros títulos, principalmente para conhecê-la através de seus romances. Seja você mulher ou homem, Um Teto Todo Seu é mais do que obrigatório para a sua vida, indico de olhos fechados este maravilhoso ensaio e espero que você tenha a mesma sensação que eu tive ao final da leitura: de querer ler mais mulheres e admirá-las por quem são.

2 comentários:

  1. Que resenha incrível!
    Já conheço um pouco Virginia Woolf por suas obras literárias, e fiquei fascinada por ela quando descobri que era feminista e defendia o direito de mulheres escreverem e se expressarem artisticamente. Quase comprei esse livro numa das promoções do Dia Internacional da Mulher! Não deu porque tive que fazer escolhas, mas esse com certeza ta na lista de desejados.
    Os livros que li dela foram As Ondas e A marca na parede e outros contos, recomendo os dois (em As Ondas ela me lembrou muito Clarice Lispector).
    Fiquei curiosa sabendo que foi uma leitura pro seu TCC, qual é o tema, e que curso você faz?

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    Respostas
    1. Muito obrigada!
      Já ouvi falar de As Ondas, e pela comparação que você fez fiquei ainda mais animada para lê-lo. Vou colocá-lo na lista de próximas leituras da Virginia!
      Eu faço Letras, mas só português, o meu tema envolve a importância da obra O Morro dos Ventos Uivantes e o papel da mulher no século XIX.

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